Coleção Clássica Marvel: O Thor da Era de Prata

 

Um dos projetos mais empolgantes da Panini nos últimos anos tem sido a Coleção Clássica Marvel. Apesar de eu querer muito, muito, muito ter a coleção inteira, tive de escolher acompanhar apenas um herói e, como o Homem-Aranha já tem a publicação da Edição Definitiva, o escolhido foi o Poderoso Thor.

O Poderoso Thor se tornou um dos personagens mais populares do mundo graças à popularidade dos filmes da Marvel. Interpretado por Chris Hemsworth, Thor foi um dos primeiros heróis a fazer parte do universo compartilhado da Marvel no cinema e estava lá no primeiro filme dos Vingadores como membro da equipe. Chega a ser surpreendente lembrar que antes disso, ele não era um personagem tão reconhecido assim.

Ok, ele não era um desconhecido do nível do Homem-Sapo ou do Pastelão, mas nem de longe alcançava a fama do Homem-Aranha ou do Hulk. Eu mesmo, apesar de gostar do personagem, tive poucas chances de ler um material solo dele.

Mas eu sei que existem duas fases da publicação do Thor que são consideradas um marco da história das HQs: a fase de Stan Lee/Jack Kirby e a fase do Walt Simonson. E assim que a Coleção Clássica Marvel foi anunciada, eu sabia que era a minha chance de enfim acompanhar a icônica fase capitaneada por Stan Lee e Jack Kirby. 

Eu só havia esquecido um pequeno detalhe. Boa parte das primeiras edições de Thor não foram escritas por Stan Lee e/ou desenhadas por Jack Kirby. A primeira aparição do herói em Journey Into Mystery #83 foi sim desenhada por Kirby, mas foi escrita por Larry Lieber apesar de Stan Lee ter idealizado a história.

E assim foi por um tempo. Às vezes o Stan Lee escrevia uma história, às vezes Jack Kirby desenhava, mas nunca os dois ao mesmo tempo. Na verdade, Thor viveu "sem dono" em seu início, passando por diversos autores e desenhistas durante todo o seu primeiro ano de publicação. A famosa run de Stan Lee e Jack Kirby só começa de fato a partir de Journey Into Mystery #97, que marca também a estreia da série back-up Contos de Asgard.

Esse bastidor explica muita coisa sobre a primeira impressão que tive ao ler os três primeiros volumes do Thor na Coleção Clássica Marvel.

As histórias seguem uma fórmula bem limitada: Dr. Donald Blake (a identidade secreta do Thor na época) está trabalhando quando um vilão ataca a cidade e Thor precisa impedi-lo. Algumas outras coisas se repetem, como Thor sempre perdendo seu martelo em algum momento (o que o faz voltar à sua forma mortal após 60 segundos) e o dr. Blake se lamentando por não poder contar seu segredo a sua amada Jane Foster.

São aventuras inofensivas, mas tão repetitivas que cansam o leitor em determinado momento. O fato de não ter uma equipe criativa fixa significava que as histórias precisavam ter o mínimo de consequências possível, já que o autor não poderia desenvolver suas ideias numa edição seguinte.

Assim, o único inimigo recorrente de Thor nesse momento é Loki, que ataca seu irmão diretamente ou manipula outro vilão para combater Thor. Seu único conflito é contar ou não sua identidade a Jane Foster, que por sinal é também sua única coadjuvante fixa.

Comparado ao Homem-Aranha, que estreou no mesmo mês que Thor, e fica visível o porquê o aracnídeo se tornou um fenômeno tão mais rápido. Nas primeiras histórias do Homem-Aranha, um novo vilão surgia a cada edição, e quase todos se tornaram uma parte importante da mitologia do personagem. O elenco coadjuvante de Peter Parker aumentou rapidamente e o número de conflitos em sua vida também.

Thor não teve esse benefício em seu primeiro ano e por isso suas histórias são bem genéricas. Você poderia substituí-lo pelo Superman ou pelo Flash ali e pouca coisa se perderia. As coisas melhoram justamente quando Stan Lee e Jack Kirby assumem o comando das aventuras do deus nórdico - o que acontece no final do segundo volume de Thor nesta coleção.

Já de início, a dupla cria a série Os Contos de Asgard, que conta histórias da mitologia nórdica adaptando-os para a linguagem dos quadrinhos e para a continuidade da Marvel (e depois aventuras do passado de Thor que nem eram baseadas na mitologia). De repente, Thor ganhou uma grande vantagem ao seu favor. Contos criava um pequeno universo em torno dele que enriquecia o passado do personagem e a sua mitologia.

Mas não foi só isso. A qualidade das aventuras do Thor no presente melhoraram quase que imediatamente. Os diálogos verborrágicos de Stan Lee e os desenhos megalomaníacos de Jack Kirby eram a combinação necessária para o clima épico que Thor precisava.

Os vilões da primeira fase eram quase todos cientistas, ou relacionados à ciência de alguma forma, como a maioria dos inimigos dos outros heróis da Marvel nesse momento. Lee e Kirby ainda tentam trazer de volta alguns desses - como Zarrko, Cobra e Mr. Hyde -, mas eles são chatos. Poderiam funcionar como vilões do Capitão América ou do Quarteto, mas contra o Thor isso não acontece.

Fica nítida a melhora quando os vilões da fantasia são introduzidos - muitos deles através de Contos de Asgard. A melhor história até o momento (estou no terceiro volume) é a primeira aparição de Encantor, em que Kirby em que Kirby usa sua habilidade em desenhar belas mulheres para criar uma vilã sedutora e memorável.

Na aventura seguinte, o texto anuncia "um dos dez maiores épicos de todos os tempos" e a história se sucede não economiza ao tentar fazer jus a esse título: Loki liberta Skagg e Surtur para destruir a Terra e Thor precisa se unir a Odin e Balder, o Bravo, para derrotá-los. Uma leitura de tirar o fôlego, com uma arte que torna tudo mais épico.

Aí na história posterior, Thor precisa enfrentar Cobra e Mr. Hyde novamente... Logo fica claro porque esses dois desapareceram enquanto Loki, Encantor, Skagg e Surtur se tornaram figuras permanentes na galeria de vilões do Thor.

Aparentemente, os autores queriam vilões científicos para apresentar conflitos a Donald Blake e vilões fantasiosos para apresentar conflitos ao Thor. Mas os personagens da mitologia são muito mais interessantes e chega a um ponto que até a figura de Donald Blake é dispensada.

Depois de dois volumes em que eu fiquei me perguntando "era isso daqui que os marvetes elogiavam tanto?", eu cheguei ao começo da era Jack Kirby e já foi o suficiente para eu fazer coro às aclamações dessa fase. Stan Lee, Jack Kirby e Thor são uma combinação dos deuses.

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