Supergirl: Sendo Super (ou "Como Você Resolve Um Problema Chamado Supergirl?")

 

Supergirl: Sendo Super foi enfim publicada pela Panini. Escrita por Mariko Tamaki e desenhada por Joelle Jones, a minissérie chegou ao Brasil com alguns anos de atraso pelo selo DC Teens.

A ideia original deste post era simplesmente fazer uma review da HQ, mas lendo a revista eu fiquei refletindo sobre a trajetória complicada da personagem. E, como o pretensioso especialista em Superman que eu acho que sou, eu senti a necessidade de falar mais sobre isso.

Então, com vocês, uma longa reflexão sobre a bagunçada vida de Supergirl (e sim, uma review da minissérie no final de tudo isso).

Uma heroína e sua busca eterna por uma identidade

Kara Zor-El estreou em 1959 como a prima na edição 252 da Action Comics. Tratava-se da prima mais nova de Superman, que vivia com seus pais em Argo City, um fragmento de Krypton que sobreviveu à explosão do planeta. Nessa história de origem, Zor-El e Alura enviam sua filha à Terra para viver com o primo Kal-El (que já é o Superman) depois que Argo City é atingida por uma chuva de meteoros.

A repercussão de Supergirl foi extremamente positiva e a personagem logo se tornou  bastante popular. Nos primeiros anos, Kara era simplesmente uma boa garota que vivia aventuras como super-heroína secretamente num orfanato de Midvale. Os problemas começaram depois: os autores não sabiam o que fazer com a Supergirl.

Em algum momento, as pacatas aventuras escondidas em Midvale cansaram e restava procurar um novo lugar e um novo elenco coadjuvante para Supergirl, ainda mantendo-a independente do resto da mitologia do Superman.

A cada novo autor, Kara mudava de cidade, profissão, amigos, vilões e o que mais fosse necessário até se chegar a algo que funcionasse. A prima do Superman se mudou para Stanhope, San Francisco, Chicago, se tornou universitária três vezes, atriz e até mesmo operadora de câmera! Nada disso funcionou, quer dizer, nada transformou a revista dela em um sucesso de vendas.

Enquanto isso, na revista da Sociedade da Justiça, os leitores eram apresentados à Poderosa, a Kara Zor-L da Terra 2. Essa versão da personagem foi enviada à Terra no dia da destruição de Krypton, ou seja, ao mesmo tempo que o primo, porém seu foguete era mais lento e ela só chegou ao nosso planeta anos depois dele.

Poderosa tornou-se uma das personagens mais populares da equipe. Paul Levitz (que não foi seu criador, mas seu autor mais frequente) deu a ela uma personalidade forte e ideias feministas que combinavam perfeitamente com o pensamento progressista dos anos 70, diferente da imagem de boa moça da Supergirl.

Mas o pior ainda estava por vir para nossa heroína de Krypton, porque vinha por aí um humilde evento chamado Crise nas Infinitas Terras...

Crise e pós-Crise


O objetivo principal da Crise Nas Infinitas Terras era simplificar o Universo DC, eliminando suas múltiplas terras paralelas e unindo a linha do tempo em uma só. Para isso, personagens teriam de morrer e a Supergirl ganhou um enorme alvo nas costas. Os editores da DC achavam que haviam muitos personagens kryptonianos no universo e o ideal seria ter o Superman como único sobrevivente de Krypton.

As várias tentativas de "relançar" a Supergirl haviam dado errado e até mesmo o filme live action estrelado por ela em 1984 foi um grande fracasso, com isso a DC teve a certeza que a personagem não deveria mais existir. E em Crisis On Infinite Earths #7, Supergirl morre. Não apenas morre: é apagada da continuidade.

Uma problema parecia ter se resolvido, só que a DC não esperava era a enxurrada de cartas pedindo o retorno da personagem. A Supergirl teve a sua existência apagada da memória de todos os indivíduos do Universo DC, mas não da memória dos leitores que amavam Kara Zor-El.

Por 20 anos a DC lançou uma sucessão de heroínas com o nome Supergirl (algumas com relativo sucesso, como a Linda Danvers do Peter David), mas o público ainda queria Kara Zor-El. Até que em 2004, a DC enfim cedeu e Jeph Loeb trouxe a prima do Superman de volta em Superman/Batman #8.

A nova versão da Supergirl usava uma história de origem similar à da Poderosa. Agora, Kara era a prima mais velha de Kal-El que foi enviado à Terra também durante a destruição de Krypton, mas sua nave saiu da rota e ela chegou ao planeta anos depois, ainda adolescente.

Essa era a chance da personagem começar do zero e ganhar uma caracterização mais consistente... mas já desde o início não foi isso o que aconteceu. Em sua revista solo, esta Supergirl era hipersexualizada e com muita raiva reprimida; mas no título que dividia com a Legião dos Super-Heróis ela tinha praticamente a mesma personalidade do pré-Crise.

As coisas finalmente pareciam estar tomando um rumo quando Sterling Gates assumiu a autoria da revista solo, aproximando a versão moderna da clássica... aí vieram os Novos 52, a Supergirl teve de ser "rebootada" e de novo Kara era sexy e raivosa.

Aprendendo a ser Super

Em teoria, eu deveria ser um fã apaixonado pela Supergirl. Afinal, o Superman é um dos meus personagens favoritos em qualquer mídia e eu adoro personagens femininas, sendo assim a Supergirl oferece o melhor de dois mundos.

Mas por mais que eu tenha tentado, eu nunca consegui me conectar de fato com a personagem. A verdade é que eu sempre preferi um pouco mais a Poderosa, que teve o benefício de integrar equipes como Liga da Justiça Europa e Sociedade da Justiça que davam a ela uma personalidade mais definida que a da sua contraparte.

Os constantes relançamentos, mudanças de status quo e a inconstância na caracterização faziam a Supergirl funcionar mais como um conceito do que como personagem. A primeira vez que eu consigo me conectar com a Kara Zor-El foi agora com esta HQ. Supergirl: Sendo Super foi publicada pela primeira vez em 2017, como uma minissérie fora da continuidade do universo DC que recontava a origem da Supergirl.

Por algum motivo, a DC sempre quis manter um afastamento entre Superman e Supergirl. Dá para contar nos dedos de uma mão as grandes histórias do Superman que têm a participação da prima. E esse afastamento prejudica a Supergirl, porque a origem dela está intimamente relacionada à dele.

Não só por eles serem primos, mas por ter sido ele quem a encontrou na Terra. Clark Kent tem família e amigos na Terra, a Kara não. O único vínculo dela é com o primo, com quem ela não pode ter muito contato por mera decisão editorial.

Nesta história, elementos da origem do Superman são transferidos para a Supergirl. Assim, o foguete de Kara é descoberto com um casal de fazendeiros em Midvale e ela cresce como Kara Danvers sem memórias de Krypton e sem saber a origem de seus poderes. Pode parecer um caminho fácil, mas funciona: esta Kara tem dois pais amorosos e duas amigas inseparáveis.

E são essas amigas que definem o arco da personagem na minissérie. Kara é aquela adolescente sem uma personalidade muito bem definida, que por isso nutre uma admiração por suas amigas Dolly e Jen, que já estão descobrindo quem são e o que querem do futuro. O senso de identidade de Kara está ligado às suas amigas, então quando uma dessas amigas morre é como se uma parte da identidade de Kara sumisse também.

Sem memórias do passado e com poderes que desconhece, Kara entra em crise quando vê a única vida que conhecia começando a mudar. A Kara de Sendo Super não é ingênua como a do pré-Crise e nem sexualizada como a do pós-Crise. Ela uma adolescente real, em processo de autodescoberta e é nisso que ela se conecta ao leitor.

Infelizmente, o potencial da minissérie se perde quando ela precisa virar uma HQ típica de super-herói. O vilão Tan-On aparece apenas na segunda metade e é muito mal elaborado. A revista parece tentar fazer uma metáfora com relacionamento abusivo, mas ela não funciona porque a relação entre Kara e Tan-On se desenvolve muito rápido.

Além disso, a batalha final é inconclusiva e você fica se perguntando o porquê de tudo aquilo quando Tan-On simplesmente some. A sensação final é de ter acompanhado o episódio piloto para um série que nunca existiu.

O curioso é que essa publicação veio um ano depois da iniciativa Renascimento DC, que procurava desfazer várias mudanças feitas nos novos 52. No caso da Supergirl, a estratégia foi deixá-la mais parecida com a série de TV estrelada por Melissa Benoist. Ou seja, essa origem não-cânone veio logo após mais uma reinvenção da personagem dentro da continuidade.

Eu menciono isso porque, apesar dos seus defeitos, Sendo Super traz uma caracterização sólida para a Kara e, caso fosse a origem canônica, essa seria a versão definitiva da Supergirl. Haveriam coincidências com a história de Clark, mas nada de muito absurdo num universo em que Wally West sofreu o exato mesmo acidente de Barry Allen.

Entretanto, desde então Supergirl continua sofrendo de sua crônica falta de identidade e, ao que tudo indica, a solução encontrada parece ser deixá-la mais parecida com a Poderosa. A minissérie Supergirl: Mulher do Amanhã do Tom King no ano passado poderia ser estrelada pela Poderosa sem sofrer qualquer alteração no roteiro e a Supergirl do desenho DC Super Hero Girls é a Poderosa sem tirar nem por (tem até o mesmo corte cabelo).

Então, é... Sendo Super é uma leitura agradável, apesar de parecer apenas um bom primeiro capítulo de uma história que não poderemos acompanhar. De certo modo, a minissérie é um reflexo do que a própria Supergirl tem sido ao longo dos anos: cheia de um potencial que ninguém descobriu como explorar.

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